Premissas e Valores

Premissas e Valores

Cultura e Mediação

A cultura, que pode ser compreendida como formação da atenção, permite alargar a nossa experiência humana e reconfigurar o horizonte de possibilidades em que nos movemos.
Contrariamente à pretensão de um conhecimento imediato de si próprio ou da comunidade que se quer construir, assumimos que as manifestações culturais são a mediação necessária para o reconhecimento pessoal de cada um e da comunidade que somos e projetamos: construímos a nossa identidade em diálogo com esse depósito de humanidade que está no património (material e imaterial) e nas obras de arte. Referimo-nos à cultura e à arte no plural, considerando a multiplicidade das suas manifestações geográficas e de meios de expressão –música, dança, literatura, artes plásticas, cinema, performance, fotografia, teatro, arquitetura, design, multimédia… –, ultrapassando as separações entre o popular e o erudito, o tradicional e o contemporâneo, e atendendo às novas linguagens criadas pelos jovens.

Arte e Vida

O que seria a vida sem música e literatura, arquitetura e design, cinema e pintura, dança e teatro?
Compreendemos as artes como parte da vida – e não um mundo paralelo, fora da existência ou num âmbito isolado da «cultura». Como afirmou Sophia de Mello Breyner Andresen, na intervenção que fez na Assembleia Constituinte, em 2 de setembro de 1975: «(…) a cultura não é um luxo de privilegiados, mas uma necessidade fundamental de todos os homens e de todas as comunidades. A cultura não existe para enfeitar a vida, mas sim para a transformar –para que o homem possa construir e construir-se em consciência, em verdade e liberdade e em justiça (…)».
Nesse sentido, a estética não está distante da ética nem da política. Recuperaremos, com esta certeza, o propósito e esforço de muitos artistas desde os anos 60 e 70 do século xx: cruzar a arte e a vida, revelá-las como uma unidade. Assim, não valorizaremos apenas o objeto artístico, mas o processo criativo e a atitude estética.

Ludicidade e Liberdade

As artes podem ensinar-nos a inestimável lição da gratuidade. A do tempo liberto, sem porquê nem para quê, a do prazer desinteressado diante da beleza. Numa época marcada pelo utilitarismo e pelo desejo de eficiência e produtividade, esta subversão é determinante. É a mesma que podemos valorizar no lúdico, no jogo, na festa. Assim, na sociedade, nas instituições culturais e nas comunidades de aprendizagem, pela proximidade das artes e expressões artísticas, promover-se-á também o prazer, o bem-estar, o jogo e a criatividade. Emocionar-se e divertir-se não podem estar em oposição a aprender e a conhecer.
As práticas artísticas podem renovar as instituições e os processos pedagógicos – evitando uma lógica instrumental do uso das artes e a sua domesticação. Desse modo, articulando a educação e a cultura (no plural), poderemos potenciar a experiência de um «espaço franco», onde se valorize a contemplação, o tempo demorado, o brincar, a descoberta, a gratuidade e a liberdade. Uma forma de afirmar a força plástica da vida –sem o peso do medo de errar. Como indica o ensinamento atribuído a Aristófanes, «educar não é encher um copo, mas acender uma chama».

Sensibilidade estética e pensamento crítico

A sensibilidade estética e artística, bem como o pensamento crítico e criativo, são áreas de competências identificadas como essenciais no Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória − e que podemos alargar a todos os graus do Ensino Superior.
A intimidade com as artes, na sua diversidade, permite a formação de competências aparentemente afastadas: por um lado, elas possibilitam a educação da sensibilidade, a tomada de consciência e o assumir do que se sente; por outro, desenvolvem a capacidade de pensar criticamente e interpretar, resistindo à mensagem evidente ou imediata, procurando outros sentidos, outros pontos de vista, outras possibilidades.
A educação da sensibilidade estética e do pensamento crítico e criativo permitirá, assim, uma maior autonomia pessoal.
Uma relação permanente com as artes e o património de diferentes culturas, ensina, também, a respeitar a experiência do outro, a ser mais recetivo à sua cultura, à sua interpretação do mundo, promovendo a partilha, a argumentação, o conhecimento de critérios de juízo de gosto e da sua evolução histórica. Assumir-se-á, assim, a complexidade do mundo e das culturas, da unidade e diversidade do humano, recusando o medo da diferença e o facilitismo superficial das respostas rápidas e gastas.

Incerteza e criatividade

Se educar é preparar para o futuro (que não existe e não conhecemos), é necessário que as instituições culturais e educativas preparem para o desconhecido, não apenas para o que já se sabe como certo. As artes são, neste contexto, um modo de alimentar a imaginação e a criatividade. Estar preparado para resolver problemas exige estar imaginativamente desenvolvido e saber lidar com o que nos escapa e não dominamos em absoluto, sem angústia. Aprender a gerir a incerteza como parte da vida, a não ter medo de errar, a ser resiliente.
A criatividade depende dos estímulos diversificados que temos: quanto mais variadas e significativas forem as experiências, maior poderá ser o potencial criativo.
Elas são a matéria-prima que usamos para criar coisas ou ideias novas: misturando, montando, religando o inesperado e questionando as convenções, sem medo de falhar ou de seguir intuições, não repetindo o já conhecido, alimentando a curiosidade e a capacidade de questionar.
Numa sociedade que enfrenta desafios decorrentes da globalização e do acelerado desenvolvimento tecnológico, onde a inteligência artificial tem já um papel decisivo, as competências emocionais, sociais, criativas e críticas que as artes proporcionam poderão ser um instrumento essencial de adaptação a esse mundo que virá.

Democratização e democracia cultural

Se a experiência estética é uma forma de validação da existência individual e subjetiva, ela é também a promessa e a expressão de uma comunidade plural: da possibilidade de viver e de partilhar essa experiência com outros; e da formação comunitária da nossa experiência, influenciados por outros e influenciando outros, afirmando e assumindo as diferenças como um bem comum.
A vivência cultural participada constitui comunidades, que se tornarão cada vez mais integradoras, na medida em que a transmissão e o acesso às manifestações artísticas e ao património cultural for democratizado, permitindo um sentimento de pertença e incentivando a participação dos cidadãos e valorizando os seus conhecimentos, práticas e tradições. Assim, todos poderão contribuir para a cultura da comunidade. Para que cada um possa participar na cultura de todos, temos de capacitar pessoas e instituições e dar condições para que isso aconteça – para tal, é fundamental que se valorizem as especificidades culturais, pessoais, territoriais, e que todos tenham acesso a múltiplas e diversificadas experiências e manifestações culturais, 15 Premissas e Valores e possam descobrir a forma própria da sua participação ativa. Em vez de “levar cultura” ao território, é preciso dizer que em todo o território já existe cultura: é fundamental valorizar a cultura que aí existe para, depois, poder identificar as expressões culturais que aí faltam e que é necessário colmatar, garantindo não só o acesso à fruição cultural, mas à produção cultural. Para que cada um se reconheça como agente cultural, um operador estético (Ernesto de Sousa). Esta subversão política/cultural do lugar do poder (e a democracia exige a partilha do poder, também na área cultural) é a de uma capacitação democrática, de valorização e responsabilização de cada um pela cultura de todos. (Conforme a Carta do Porto Santo).

Múltiplas linguagens, diversidade cultural e inclusão

Compreendemos a educação como missão das instituições culturais e educativas, um processo de aprendizagem ao longo da vida, onde se constroem, de forma participada e conjunta, conhecimentos, capacidades e atitudes fundamentais para o desenvolvimento integral da pessoa. Através das artes, das atividades culturais, do acesso ao património material e imaterial das culturas dos diversos membros da comunidade, ampliar-se-á a quantidade e qualidade de vivências e competências, reforçando a abertura à comunidade e ao mundo.
A escola e as instituições de ensino superior, como comunidades de aprendizagem em que todos os membros são coconstrutores desse aprender, deve promover o acesso à diversidade cultural e à apropriação das diferentes linguagens e expressões artísticas. Há múltiplas linguagens e diferentes modos de expressão pessoal e de compreensão do mundo, que devemos ajudar a desenvolver. Idiomas distintos, em que nos podemos dizer e compreender. As artes permitem, assim, encontrar outros códigos, que complementam aqueles que tornámos centrais na nossa sociedade e educação: o verbal e o da racionalidade lógica. Racionalizámos em demasia a educação, não promovendo suficientemente a formação dos afetos, a relação com o corpo, a valorização da autonomia, a capacitação para assumir os desafios e os falhanços, o prazer de aprender, de interpretar e intervir no mundo. É preciso educar e formar para as diversas linguagens, inteligências e modos de comunicar.
Nem todos se enquadram na predominante e imposta habitualmente, a da racionalidade lógico-verbal. Esses sentem-se excluídos –e poderão encontrar nas expressões artísticas o seu meio e o seu elemento, um caminho para a sua realização pessoal e participação no bem comum. Dessa forma, poderá desenvolver-se o sentido de pertença de cada um à comunidade –em particular, dos que estão em situação de exclusão e vulnerabilidade.
A escola só será para todos se não excluir ninguém, assumindo que o problema de um é o desafio de todos.

Condição histórica e tarefas infinitas

O conhecimento do património e das artes, permite-nos uma consciência histórica e inscreve-nos como parte de uma tarefa infinita –que recebemos como herança e que devemos renovar para o futuro. Fazemos parte de uma comunidade e de um esforço comum que nos antecede e nos ultrapassa. Desse modo, a promoção de uma educação que valorize o património e as artes reforçará o sentimento de pertença dos cidadãos e ajudará na reconstrução de comunidades historicamente enraizadas, conscientes das múltiplas influências culturais de que somos devedores e da importância de respeitar a diversidade de culturas. Essa consciência histórica, se autêntica e alargada, ao invés de gerar sentimentos saudosistas ou nacionalistas, ajudará a derrubar muros, a interrogar as habituais fronteiras e a preparar a mudança que compõe o mundo e a vida

EXAMES NACIONAIS

 

Inscrições para a 2ª fase

 

dias 17  e  18 de julho